Seu ato de poupar pode ajudar na inflação?

Segundo um estudo do Banco Mundial, apenas 4% dos brasileiros poupam para a aposentadoria (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/01/1847930-apenas-4-dos-brasileiros-poupam-para-a-aposentadoria.shtml). O que algumas pessoas não sabem é que essa baixa porcentagem pode ajudar na inflação que, de vez em quando, sofre aumentos até que o governo atua para forçá-la a baixar novamente.

Toda vez que a inflação sobe e começa a sair do intervalo da meta que o governo estipula, algumas medidas são tomadas para que ela volte a ficar dentro da meta. Uma delas é o aumento da taxa Selic. Alguns podem não saber, mas essa taxa é base para taxas de juros em empréstimos, base para o CDI, reajuste da restituição de imposto de renda, base para o cálculo do rendimento da poupança etc.

O aumento na Selic faz com que o dinheiro fique mais caro. Um exemplo que posso dar para mostrar como isso acontece é o seguinte: imagine um banco com, digamos, R$ 500.000,00 a serem investidos. Ele pode, dentre outras opções: a) emprestar esse dinheiro para uma pessoa física a uma taxa de 10% ao ano; b) emprestar esse dinheiro para uma pessoa jurídica a uma taxa de 10% ao ano; c) comprar títulos do tesouro direto, mais especificamente o Tesouro Selic a uma taxa de 10% ao ano. Só queria lembrar que esses números foram escolhidos arbitrariamente para a explicação.

É fácil de ver que a opção C é a mais indicada para o banco? Em tese, há maior inadimplência em pessoas físicas e jurídicas do que no tesouro direto. Até hoje, não houve nenhum caso de falta de pagamento dos títulos públicos. Em contrapartida, inadimplências em pessoas físicas e jurídicas são absolutamente comuns. Com isso, o banco vai preferir comprar títulos públicos do que emprestar para você, considerando a mesma taxa de retorno. Mas ainda assim, o governo empresta dinheiro para pessoas diariamente. Por causa do risco de inadimplência, ele vai te emprestar a uma taxa maior do que 10% para compensá-la. É só lembrar que, se for para te emprestar a 10%, ele prefere comprar Tesouro Selic. Então digamos que ele decida que vale a pena te emprestar se a diferença da taxa que ele vai te cobrar para a Selic for de 5%, ajustando a taxa de empréstimo para você em 15%.

Passados alguns meses, o Banco Central decide aumentar a taxa Selic para 11%. Aqueles 15% de taxa de empréstimo do banco vão passar para 16%, de forma que a diferença fique em 5%. Com isso, a cada aumento na taxa Selic, há um aumento de empréstimo para você. Cada vez que o governo diminui a taxa Selic, do mesmo modo, há uma diminuição nas taxas de empréstimos do banco. Isso mostra o quanto a taxa Selic é importante.

Onde quero chegar? Quero chegar que a cada aumento da taxa Selic, o custo do dinheiro aumenta também, forçando as pessoas a pensarem 2 vezes antes de gastar um real ou pegar um empréstimo. Isso faz com que haja uma economia forçada entre as pessoas. E esse desencorajamento é intencional por parte do governo. Ao aumentar a Selic, ele quer que você não gaste tanto quanto gastava antes do aumento. Essa diminuição do gasto das pessoas faz com que as empresas tenham que pensar melhor na hora de aumentar seus preços, pois, caso contrário, a queda nas vendas pode ser ainda maior. Desse modo, a inflação é contida.

Neste ponto, acho que é válido uma observação: nem todos economistas acreditam nisso tudo que foi falado até aqui. Alguns acreditam que, com esse aumento da Selic, a inflação é contida somente no curto prazo, voltando a subir no longo prazo. Mas essa discussão não cabe neste escopo.

Acredito que o leitor já está visualizando como o seu ato de poupar pode ajudar na inflação. E se você pensou que, deixando de gastar tanto, as empresas pensam melhor na hora de reajustar seus preços, então você acertou. Se o brasileiro, de um modo geral, gasta todo o dinheiro que sobra do seu salário, então ele cria uma demanda alta de produtos e serviços. Cada vez que o empresário consegue vender todos seus produtos, e ainda existem clientes querendo comprá-los, ele se vê diante de uma situação chamada de backorder. Esta situação acontece quando há uma demanda maior do que a oferta. Neste caso, os clientes que ficaram sem produto vão procurá-lo no concorrente. Isso é ruim para o empresário que não conseguiu atender a todos os clientes, pois ele pode perder uma parte do mercado que lhe pertence. Para evitar esta situação, ele acaba aumentando os preços, causando, um aumento da inflação. Obviamente, ele sozinho não vai conseguir isso, mas, quando vários tomam essa decisão, aí sim, teremos o aumento da inflação.

Alguém pode pensar que não é inteligente aumentar o preço para evitar o backorder, mas quando você vai, algumas vezes, a uma loja e não tem o produto, você perde a vontade de ir lá, e passa a procurar em outra loja. No longo prazo, isso é muito ruim para a loja que não pôde te atender, pois ela perde uma fatia do mercado que lhe pertence, que poderá ir para o concorrente.

É claro que um backorder não vai acontecer só porque meia dúzia decidiu gastar tudo que ganhou no mês. E a inflação não vai diminuir só porque você escolheu parar de gastar tudo e economizar. Pense em escala nacional. Se todos fizerem isso, a inflação diminui um pouco. Só quero que fique claro que isso não é a solução para a inflação, mas já ajuda bastante. E a ideia é simples: menos gasto, menos demanda, mais oferta e preços caem.

E aqui entram dois pontos que, infelizmente, fazem parte da nossa cultura. O primeiro é essa necessidade de gastar que nós temos. Pode ser que você não tenha, mas aposto que você conhece alguém que tenha. Já cheguei a ouvir o seguinte: "ver alguém fazendo compras me agrada, mesmo que eu não compre nada". Sim, é verídico. Pode acreditar!

O segundo ponto é a falta de conhecimento sobre investimentos. Poucos brasileiros realmente sabem o básico, e não estou falando sobre investir em opções, fundos de dívida externa, etc que são escolhas mais arriscadas. Falo do básico mesmo sobre LCI, CDB, títulos. E não sou eu quem falou isso. Uma pesquisa da SPC e CNDL mostra que em torno de 58% dos brasileiros não sabem quais os investimentos com as melhores taxas de investimento. O link para a matéria no Ig é http://economia.ig.com.br/2017-01-30/investimentos-entre-brasileiros.html.

Sempre é falado do problema da inflação, que corrói o poder de compra das pessoas, mas o que algumas não sabem é que a deflação, que é o inverso da inflação, também é ruim. Alguém pode perguntar: "mas deflação existe em algum lugar do mundo?". E a resposta é "sim". Existe no Japão, e o governo de lá vem tentando de todas as formas acabar com isso. É interessante para a economia que exista um pouco de inflação. Mesmo que pequena, ela tem que existir. Alguns países colocam como meta uma inflação de 2% ao ano. É pequena, mas ela está lá para estimular a economia.
Uma matéria interessante sobre o caso do Japão é http://economia.ig.com.br/2014-03-30/mania-de-poupar-dos-japoneses-atrapalha-luta-contra-deflacao-no-pais.html.

Pode ser que você pense: "então você quer que eu poupe um pouco todo mês para que eu ajude na inflação?". Sinceramente, quando você poupa um pouco todo mês, você não contribui somente para a inflação. Você contribui para a sua aposentadoria. E a cada dia, precisamos pensar melhor nela. Você pretende ficar só com o dinheiro do governo de aposentadoria? Eu não. Ao juntar um dinheiro para a sua 3ª idade, você pode usar rendimento mensal dessa poupança como parte da sua aposentadoria e depender menos do governo. Então te respondendo: não, eu não quero que você poupe só para ajudar na inflação. Eu quero que você poupe para você depender menos do governo na sua aposentadoria.

Pense nisso!

Obrigado pela visita.

Links sugeridos para leitura:

O desafio P200/30: http://guiamonetario.blogspot.com/2016/11/o-desafio-p20030-e-suas-variacoes.html

Criando sua própria aposentadoria: http://guiamonetario.blogspot.com/2017/01/criando-sua-propria-aposentadoria.html

Perdendo o medo de investir: http://guiamonetario.blogspot.com/2017/01/perdendo-o-medo-de-investir.html

Metas da inflação do governo: http://www.bcb.gov.br/Pec/relinf/Normativos.asp

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